sexta-feira, 27 de novembro de 2009
ENTREVISTAS E PESQUISAS
Na pesquisa, feita pela internet, Zilli faz uma análise etnográfica do fluxo de informação contido na web, nos canais que permitem que os praticantes do BDSM entrem em contato uns com os outros, focando-se principalmente nos elementos textuais que contém informações sobre o BDSM, os quais o autor chama de “manuais”.
Um dos autores dos 20 artigos que compõem a coletânea “Prazeres Dissidentes”, que será lançada pelo CLAM e Editora Garamond nos dias 21 de outubro em São Paulo e 10 de novembro no Rio de Janeiro, Bruno Zilli explica nesta entrevista as maneiras pelas quais se constroem subjetividades e identidades coletivas a partir da prática BDSM, interpretando os discursos que seus praticantes utilizam para legitimá-la.
Como explicar ou conceituar o BDSM para além do acrônimo usado para defini-lo?
O próprio acrônimo já indica o esforço de legitimação que caracteriza o BDSM, por parte dos próprios adeptos, no sentido de ressignificar as práticas. Quem não pratica ou conhece o BDSM geralmente define estas atividades como sadomasoquismo, ou mais comumente, como perversões sexuais. No meu estudo eu as entendi como um conjunto de atividades sexuais que formam uma identidade sexual. Os seus adeptos se identificam como praticantes de BDSM, e alguns dizem “Eu sou BDSMista”.
Qual o papel e a importância do consentimento na prática do BDSM?
O senso comum considera o BSM como uma coisa patológica ou criminosa. No entanto, há um esforço entre seus adeptos em legitimá-lo, tornar a prática “politicamente correta”, que se dá através de “ferramentas argumentativas” como o conceito de SSC (que significa que a atividade é sã, segura e consentida). Nenhuma das atividades BDSM deve ser praticada sem que todos os indivíduos concordem com o que esteja acontecendo, para os envolvidos tem que haver consentimento. O dialogo é muito importante entre seus praticantes.
Esse diálogo se dá no sentido de negociar...
Sim, é necessário que cada praticante saiba tudo o que vai acontecer para que possa dar o seu aval. As pessoas entram em acordo sobre o que as excita e o que não, o que esperam do parceiro e o que não desejam, o que não consideram prazeroso. Nesse sentido podemos dizer que o BDSM também é um “jogo erótico”, praticado para estimular o prazer, mesmo que algumas vezes seja através da dor. Não necessariamente uma dor física, pois o prazer pode se dar através da “dor emocional”, uma humilhação simulada, por exemplo. E são esses elementos que dão o sentido erótico destas atividades: a dor e a humilhação.
Todas essas “ferramentas de segurança” e a simulação nos dão uma idéia de que se trata de um jogo cênico. Mas isto não acaba descaracterizando um pouco a prática, tendo em vista que a violência, neste caso, é a fonte do erótico?
De fato, alguns praticantes de BDSM consideram haver um elemento de atuação. Há inclusive debates dentro da comunidade BDSM sobre o que seria o “BDSM real”, e sobre quais os limites do consentimento ou da negociação. Contudo, há o estimulo baseado na dor, e esta é real. E isso é considerado prazeroso. Mas há também a idéia de cuidado e segurança. Por exemplo, os praticantes afirmam que é preciso saber como se amarra uma pessoa sem prender a sua circulação sanguínea. Também, por exemplo, ensinam que se deve evitar bater na região do torso, onde ficam os órgãos vitais. Alguns praticantes falam sobre como essa negociação é erótica em si mesma. A prática não deixa de ter um caráter erótico só porque está sendo “encenada”.
Pode-se perceber que o que se busca com estes cuidados é uma sexualidade legítima, e por isso todos os elementos ilegítimos são expurgados do BDSM, como a violência real. A violência é o principal elemento do BDSM, mas também é o que precisa ser “apaziguado”. Nesse sentido, é possível falar de uma “domesticação” da violência, que é elaborada através do consentimento em algo legítimo e aceitável – justamente porque é consentida.
Qual a relação do esforço dos argumentos de legitimação do BDSM e a medicina?
Os praticantes estão desenvolvendo todo esse conjunto de argumentação para afastar a prática BDSM da criminalidade e da patologia. As perversões são definidas no final do século XIX já com esses nomes que conhecemos – sadismo, masoquismo, o fetichismo a homossexualidade (que saiu deste rol na década de 70 graças aos esforços do movimento gay norteamericano) e se mantiveram estáveis enquanto categorias diagnósticas dentro das classificações psiquiátricas. Dentro da medicina, e da psiquiatria em especial, ainda são consideradas um comportamento patológico. Mas pelas definições médicas, o masoquista só consegue prazer através da dor, o sádico só consegue ter prazer causando esta dor, e o fetichista só se excita com algumas partes do corpo ou objetos específicos, como pés ou couro. Esta exclusividade de só conseguir o prazer em causar ou receber dor ou com certos fetiches é uma das características do diagnostico psiquiátrico para estes transtornos mentais. Entende-se que estes transtornos são realizados contra pessoas que não consentem serem alvo destes desejos. Mas, afirmam os praticantes de BDSM, é sempre consentido o que eles fazem, nunca estão agindo contra a vontade de alguém. Dessa maneira eles desassociam suas práticas das patologias sexuais, que não são consentidas. Além disto, os praticantes reconhecem que não dependem exclusivamente do BDSM para ter prazer, diferente da exclusividade que é descrita como patológica pelos manuais psiquiátricos.
Sua pesquisa analisa os “manuais” de BDSM na Internet, isto é, espaços virtuais onde circulam informações e argumentação sobre a prática, organizados pelos adeptos. Em que medida esses espaços são usados para legitimar essas atividades?
Há um conjunto de regras e definições que circulam em ambientes virtuais que são elaborados pelos praticantes, e que eu chamo de “manuais” - e que podem ser páginas, listas de discussão por e-mail e fóruns, e que não têm um formato único – embora o conteúdo seja sempre muito parecido. Nestes espaços da Internet o BDSM, seus conceitos, atividades e definições são debatidos e refinados pelos seus adeptos. O SSC, por exemplo, tem sua definição mais fechada, mas ainda existem diferenças e desacordos que vão sendo aos poucos negociados para alcançarem uma sintonia maior. Os próprios praticantes reconhecem nestes espaços que o consentimento tem fronteiras e limites, mesmo como uma ferramenta de legitimação e de segurança. Eles debatem esses limites, sempre buscando desenvolver um guia de práticas que sejam mais seguras e legítimas possíveis. Eles entendem que é preciso ter conhecimento para praticar o BDSM. A assimilação dessas regras é parte essencial da prática BDSM. Como saber usar a safe word para negociar o consentimento, por exemplo.
O que é a safe word?
Algum tipo de sinal – que pode ser uma palavra ou gesto – previamente combinado antes da atividade BDSM ser executada que, quando dado no meio da atividade, faz com que tudo pare, porque alguma coisa não está mais dando certo, alguém não está confortável com o que esta acontecendo ou algum limite foi ultrapassado. Por esse motivo, nunca são usadas palavras como “Não” ou “Pare”. A safe word tem que ser uma palavra que não remeta ao contexto erótico do que está sendo praticado. Pode ser uma palavra neutra, que descreva uma cor, como “Amarelo”.
Então ela é combinada previamente?
Sim. Sempre vai se combinar uma safe word, para caso aconteça algo que um participante não goste, mas que acabe sendo feito por seu(s) parceiros(s), ele tenha uma maneira clara e direta de comunicar seu incômodo. É por isso também que o conteúdo das atividades BDSM são geralmente pré-combinados. As práticas estão associadas ao gosto das pessoas. A pessoa que gosta de dominar ou de bater é conhecida como top, e a que gosta de apanhar ou ser submissa é definida como bottom. Há pessoas que se sentem à vontade para desempenhar os dois papéis dependendo com quem estejam. As pessoas que fazem as duas coisas são conhecidas como switchers. Mulheres podem ser tops, pois não é preciso ter um falo. Dominação e sadismo não estão ligados à penetração ou ao estímulo genital, necessariamente. Embora no vocabulário gay norteamericano bottom se refira a quem é penetrado na relação sexual, no BDSM o bottom poder agir como penetrador. Seu papel ainda é de submissão – ele penetra porque a outra pessoa o está “obrigando” a fazer isso dentro do contexto da “atuação” da dominação e submissão. Os praticantes de BDSM entendem que é importante conhecer todas essas definições e nomes.
Não seria este o papel do que você chama de “manuais” em seu trabalho?
Exatamente. O primeiro papel dos manuais é informar, e quem não conhece passa a ter a oportunidade de conhecer. O segundo é ajudar a pessoa que pratica o BDSM a falar dessas atividades de maneira a legitimá-las, explicar que existem regras e guias de atividades de como praticar com segurança o BDSM.
Qual a importância da internet para os praticantes do BDSM?
Além da possibilidade de acessar esse material, a Internet dá a possibilidade do anonimato, o que facilita entrar em contato com outras pessoas que têm gostos semelhantes. Mas também permite que as pessoas debatam e divulguem os conceitos e definições do BDSM. Ao fazer a pesquisa, percebi que havia uma grande quantidade de material online, facilmente acessível, e que o seu conteúdo é muito importante para entender o BDSM.
A preferência e o gosto pelo BDSM são algumas vezes explicados, nos discursos patologizantes, como resultado de algum tipo de trauma na infância da pessoa que o pratica. Como esse tipo de discurso é recebido no circuito pesquisado?
Os praticantes se afastam dessas afirmações. Dizem que é uma prática saudável e não identificam em si mesmos um percentual de traumas e abusos na infância. Um dos esforços principais dos praticantes de BDSM, e que aparece também nos manuais e nos argumentos ao redor do consentimento, é escapar da idéia de que estas atividades são patológicas e abusivas. Os praticantes dizem que não dá para explicar o prazer pela dor, assim como não se explica a orientação sexual de uma pessoa. Definem suas práticas como um direito de exercer sua sexualidade – sem deixar de entender que possuem deveres, que seria a responsabilidade de respeitar o consentimento alheio em participar ou não destas atividades.
O QUE É OU SIGNIFICA BDSM?
BDSM é um acrónimo para a expressão Bondage, Disciplina, Sadismo e Masoquismo um grupo de padrões de comportamento sexual humano. A sigla descreve os maiores subgrupos:
* Bondage e Disciplina (BD)
* Dominação e Submissão (DS)
* Sadismo e Masoquismo/ou Sadomasoquismo (SM)
Prática de BDSM
BDSM é um acrônimo para Bondage e Disciplina, Dominação e Submissão, Sadismo e Masoquismo. O BDSM tem o intuito de trazer prazer sexual através da troca erótica de poder, que pode ou não envolver dor, submissão, tortura psicológica, cócegas e outros meios. Por padrão, a prática é provocada pelo(a) Dominador(a) e sentida pelo(a) Submisso(a). Muitas das práticas BDSM são consideradas, num contexto de neutralidade ou não sexual, não agradáveis, indesejadas, ou desvantajosas. Por exemplo, a dor, a prisão,a submissão e até mesmo as cócegas são, geralmente, inflingidas nas pessoas contra a sua vontade, provocando essas sensações desagradáveis. Contudo, no contexto BSDM, estas práticas são levadas a cabo com o consentimento mútuo entre os participantes, levando-os a desfrutarem mutuamente. O conceito fundamental sobre o qual o BDSM se apóia é que as práticas devem ser SSC (São, Seguro e Consensual). Atividades de BDSM não envolvem necessariamente a penetração mas, de forma geral, o BDSM é uma atividade erótica e as sessões geralmente são permeadas de sexo. Em geral o limite pessoal de cada um não é ultrapassado, apesar de pedir para o dominador parar não adianta pois faz parte, para esse fim é utilizada a SAFEWORD (palavra de segurança) que é pré-estabelecida entre as partes.
BDSM e Sexo Seguro
Os praticantes responsáveis e maduros do BDSM primam pela segurança nos relacionamentos, envolvendo ou não sexo. Especialmente quando as práticas envolvam uso de instrumentos que possam ferir a pele da pessoa submissa.
Quando o relacionamento envolvendo sexo se dá de forma não-exclusiva, com múltiplos parceiros, é absolutamente essencial a utilização de proteção do tipo "camisinha", seja ela masculina ou feminina. Além disso há procedimentos para limpeza e esterilização de instrumentos que sejam usados por mais de uma pessoa, evitando, dessa forma, possibilidade de propagação de doenças, sejam ou não DSTs.

A coleira é um símbolo de submissão muito popular entre os praticantes de BDSM.
Marquês de Sade
MARQUÊS DE SADE - Quem foi?
Donatien Alphonse François de Sade, o marquês de Sade, (Paris, 2 de junho de 1740 — Saint-Maurice, 2 de dezembro de 1814) foi um aristocrata francês e escritor libertino. Muitas das suas obras foram escritas enquanto estava em um hospício, encarcerado por causa de seus escritos e de seu comportamento. De seu nome surge o termo médico sadismo, que define a perversão sexual de ter prazer na dor física ou moral do parceiro ou parceiros. Foi perseguido tanto pela monarquia (Antigo Regime) como pelos revolucionários vitoriosos de 1789 e depois por Napoleão.
Cronologia
- 1740 - Nasce em Paris em 2 de junho. Vive dos quatro aos dez anos de idade no Comtat-Venaissim.
- 1750 - Estuda no Collège Louis-le-Grand e também com preceptor particular.
- 1754 - É admitido na Escola da Cavalaria Ligeira.
- 1755 - Torna-se subtenente do regimento de infantaria do rei.
- 1757 - É promovido a oficial. Tem início a Guerra dos Sete Anos.
- 1759 - Torna-se capitão do regimento de cavalaria de Bourgogne.
- 1763 - É desmobilizado e casa-se com Reneé-Pélagie de Montreuil. Passa quinze dias na prisão de Vincennes por "extrema libertinagem".
- 1764 - É recebido pelo parlamento de Bourgogne no cargo de lugar-tenente geral das províncias de Bresse, Bugey, Valromey e Gex.
- 1765/1766 - Mantém relacionamentos públicos com atrizes e dançarinas.
- 1767 - Falece o conde de Sade, seu pai, e nasce o seu primeiro filho, Louis Marie de Sade.
- 1768 - Primeiro grande escândalo: a mendiga Rose Keller processa o Marquês por maus tratos, em Arcueil. Sade é detido em Saumur por quinze dias, e depois em Pierre-Encise, perto de Lyon, por sete meses. Festas e bailes sucedem-se em seu castelo de La Coste, na Provence.
- 1769 - Nasce seu segundo filho, Donatien Claude Armand de Sade.
- 1771 - Nasce sua filha, Madeleine Laure de Sade.
- 1772 - Segundo grande escândalo: em Marselha, quatro prostitutas processam Sade e seu criado Latour por flagelações, sodomia e ingestão forçada de uma grande quantidade de cantárida (pó de asas de besouros africanos, capaz de provocar estado de excitação sexual no homem e na mulher) afrodisíaco. É condenado à morte por sodomia. Foge para a Itália. Na cidade de Aix-en Provence, a 12 de setembro, é executado junto com Latour em efígie (isto é, bonecos simbolizando Sade e seu criado foram publicamente executados, na ausência dos verdadeiros réus). Detido em Chambéry, é encarcerado em Miolans, na Savoie.
- 1773 - Foge em Miolans. Sua sogra, madame de Montreul, obtém licença do rei para prendê-lo e confiscar seus documentos, mas sem resultado.
- 1774 - Isola-se em seu castelo em La Coste.
- 1775 - Organiza diversas orgias em seu castelo. Risco de novo escândalo. Foge novamente para a Itália.
- 1776 - Volta à França.
- 1777 - Falece sua mãe, madame de Sade. É capturado em Paris e encarcerado em Vincennes.
- 1782 - Finaliza o Dialogue entre un prêtte et un moribond.
- 1784 - É transferido para a Bastilha.
- 1785 - Conclui Les Cent vingt journées de Sodome.
- 1787 - Redige contos e pequenas histórias.
- 1788 - Escreve Eugénie de Franval e Justine, Les infortunes de la ventu. Organiza um catálago de suas obras.
- 1789 - Provavelmente neste ano, conclui Aline Et Valcour. É transferido precipitadamente para Charenton, na noite de 3 de julho para 4 de julho. Com a tomada da Bastilha, são pilhados seus documentos e bens pessoais.
- 1790 - É libertado de Charenton. Inicia sua ligação com Marie-Contance Quesnet, que não mais o abandonará.
- 1791 - Publica clandestinamente Justine ou Les malheurs de la vertu. Escreve seu primeiro texto político. É também o ano da primeira montagem de Oxtiern.
- 1792 - O castelo de La Coste é pilhado. Le Suborneur é levado à cena, sem sucesso.
- 1793 - Redige novos textos políticos. É mais uma vez acusado e detido.
- 1794 - Prisioneiro em Carmes, Saint-Lazane, na casa de saúde de Picpus. É condenado à pena de morte e posteriormente liberado.
- 1795 - Publica clandestinamente La philosophie dans le boudoir e, oficialmente, Aline et Valcour.
- 1796 - "Oxtiern" é levado novamente à cena, agora em Versalhes, onde seu autor vive de forma muito modesta. A ele cabe o papel de Fabrice.
- 1800 - Publica oficialmente Oxtiern e Crimes de l'amour, e, clandestinamente, La nouvelle Justine.
- 1801 - É detido na editora Massé, que publica suas obras, onde também ocorre a apreensão da edição ilustrada em dez volumes de La nouvelle Justine e também de Juliette. Permanece preso em Saint-Pálagie e depois em Bicêtre.
- 1803 - A família obtém suas transferência para Charenton, onde ele passa a organizar espetáculos com os "loucos", que se tornam atração para visitas da aristocracia parisiense.
- 1807 - Escreve Journées de Florbelle. Os manuscritos desse livro, apreendidos em seu quarto, seriam queimados em praça pública por seu próprio filho, depois de sua morte.
- 1813 - Publica oficialmente La Marquise de Gange
- 1814 - Morre em 2 de dezembro, em Charenton.
Filosofia
Além de escritor e dramaturgo, foi também filósofo de ideias originais, baseadas no materialismo do século das luzes e dos enciclopedistas. Lido enquanto teoria filosófica, "o romance de Sade oferece um sistema de pensamento que desafia a concepção de mundo proposta pelos dois principais campos filosóficos no contexto da França pré-republicana: o religioso e o racionalista".[1] Sade era adepto do ateísmo e era caracterizado por fazer apologia ao crime (já que enfrentar a religião na época era um crime) e a afrontas à religião dominante, sendo, por isso, um dos principais autores libertinos - na concepção moderna do termo. Em suas obras, Sade, como livre pensador, usava-se do grotesco para tecer suas críticas morais à sociedade urbana. Evidenciava, ao contrário de várias obras acerca da moralidade - como por exemplo o "Princípios da Moral e Legislação" de Jeremy Bentham- uma moralidade baseada em princípios contrários ao que os "bons costumes" da época aceitavam; moralidade essa que mostrava homens que sentiam prazer na dor dos demais e outras cenas, por vezes bizarras, que não estavam distantes da realidade. Em seu romance Os 120 Dias de Sodoma, por exemplo, nobres devassos abusam de crianças raptadas encerrados num castelo de luxo, num clima de crescente violência, com coprofagia, mutilações e assassinatos - verdadeiro mergulho nos infernos.
Obras de Sade
Duas personagens criadas por Sade foram suas idéias fixas durante décadas: Justine (que se materializou em várias versões de romance, ocupando muitos volumes), a ingênua defensora do bem, que sempre acaba sendo envolvida em crimes e depravações, terminando seus dias fulminada por um raio que a rompe da boca ao ânus quando ia à missa, e Juliette, sua irmã, que encarna o triunfo do mal, fazendo uma sucessão de coisas abjetas, como matar uma de suas melhores amigas lançando-a na cratera de um vulcão ou obrigar o próprio papa a fazer um discurso em defesa do crime para poder tê-la em sua cama. As orgias com o papa Pio VI em plena Igreja de São Pedro, no Vaticano, fazem parte da trama sacrílega e ultrajante do romance Juliette, com a fala do pontífice transformada em agressivo panfleto político: A Dissertação do Papa sobre o Crime. Sade tinha o costume de inserir panfletos político-filosóficos em suas obras. O panfleto Franceses, mais um Esforço se Quiserdes Ser Republicanos, que prega a total ruptura com o cristianismo, foi por ele encampado ao romance A Filosofia na Alcova, no qual um casal de irmãos e um amigo libertino seqüestram e pervertem uma menina, fazendo-a matar empalada a própria mãe que tenta resgatá-la no final.
Precursor da revolução sexual
Além de patrono do surrealismo, Sade é considerado um dos pioneiros da revolução sexual, com suas ideias libertárias e permissivas, e um dos primeiros a ter uma visão moderna da homossexualidade, pois defende a existência de diferentes orientações sexuais para a humanidade. Em Os 120 Dias de Sodoma, chega a satirizar o predomínio do pensamento heterossexual e a milenar condenação à morte de comportamentos considerados desviantes: no romance, ele inverte a situação e dessa vez humilha a heterossexualidade, que é punida com a morte pelas regras libertinas do castelo em que se realizam as excrementosas, sangrentas e incestuosas orgias, regadas a homossexualidade e sodomia. A obra de Sade, constantemente proibida, serviu de base para a Psychopathia sexualis de Kraft-Ebing, que classificou as parafilias e incluiu nelas o sadismo, conceito que também seria muito importante para Freud e seus seguidores, como Melanie Klein, em cuja obra o termo sadismo costuma ser exaustivamente repetido. Hoje considerado um clássico maldito, pois passou quase trinta anos preso mais por suas ideias e por seu comportamento sexual do que por seus crimes, Sade só começou a ser valorizado pelos surrealistas, no começo do século 20.
Surrealismo e psicanálise
Tanto o surrealismo como a psicanálise encamparam a visão da crueldade egoísta que a obra de Sade expõe despudoradamente. Um exemplo de influência do Marquês de Sade na arte do século 20 é o cineasta espanhol Luis Buñuel, que em vários filmes faz referências explícitas a Sade: em A Idade do Ouro, por exemplo, retrata a saída de Cristo e dos libertinos do castelo das orgias de Os 120 Dias de Sodoma. O sadismo também está explícito nas imagens mais surrealistas produzidas por Buñuel, como a navalha cegando o olho da mulher em O Cão Andaluz. Também há fortes referências sadianas em A Bela da Tarde e em Via Láctea, no qual aparece uma Cena em que Sade converte uma indefesa menina ao ateísmo. A influência de Sade pode ser notada também em autores como o dramaturgo francês Jean Genet, homossexual, ladrão e presidiário, que retoma muitos dos temas do marquês, também desenvolvidos em ambientes carcerários franceses.
Questão da homossexualidade
A questão da suposta homossexualidade de Sade ("Terá sido Sade um pederasta?") foi formulada pela escritora francesa Simone de Beauvoir no clássico ensaio 'É preciso Queimar Sade? - Privilégios'. A autora conclui pela heterossexualidade de Sade, que sempre amou mulheres tolerantes a suas aventuras, embora tivesse um comportamento sexual atípico, defendendo o coito anal e chegando a pagar criados para sodomizá-lo publicamente em suas orgias, das quais a primeira mulher, Renné de Sade, teria participado. Atualmente, estudiosos da cultura e da literatura, como o jornalista Ottaviano de Fiore, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), compartilham a opinião de Simone de Beauvoir, creditando o comportamento e a imaginação literária do autor de 'Os 120 Dias de Sodoma' a neuroses relacionadas a parafilias, como o gosto pelo lixo e pela sujeira, que na ficção sadeana desembocam na apologia do crime e na erotização da fealdade e das mais atrozes torpezas. "A crítica que faço à pergunta de Simone de Beauvoir é que, posta em sua época, ela remete à visão de seres humanos descontínuos,isto é, não vê, como atualmente se vê, um continuum humano, mas vê um mundo repartido em que gays e outras minorias seriam descontínuos em relação a um padrão de ser humano dito normal, isto é, o gay seria o outro, que não partilharia da mesma condição humana, ponto de vista hoje considerado preconceituoso e racista, pois o padrão de ser humano mudou", afirmou Ottaviano de Fiore.
Velhice e Legado
Na velhice, já separado de Renné, sua primeira mulher, mas, como sempre, preso por causa de suas idéias e de seu comportamento libertino, foi amparado pela atriz Marie-Quesnet, que mudou-se com ele para o Hospício de Charenton. Nessa época, sob o olhar tolerante de Marie-Quesnet, enamorou-se da filha de uma carcereira que tinha 14 anos quando o conheceu. Todos esses fatos estão rigorosamente documentados por Gilbert Lely, o mais importante biógrafo de Sade, compilador de suas cartas e autor do clássico 'Vida do Marquês de Sade'. Morreu aos 74 anos, amado por duas mulheres, com quem planejava produzir peças teatrais pornográficas quando um dia saísse do hospício.
Obras do autor
- Justine
- Juliette de Sade
- Zoloe e suas Amantes
- O Estratagema do Amor
- Os Crimes do Amor
- A Filosofia na Alcova
- Contos Libertinos
- Diálogo entre um Padre e um Moribundo
- Os 120 dias de Sodoma
- A Crueldade Fraternal
Cinema
Muitos filmes foram feitos sobre o autor e sobre a teoria de suas obras.
- Marat/Sade, de Peter Weiss (1966), peça que deu origem a filme.
- Justine e Juliette (1968)
- Filosofia na Alcova (1969)
- De Sade (1969)
- Saló ou 120 Dias de Sodoma do diretor Pier Paolo Pasolini (1975).
- Paixão cruel (1977)
- Marquis (1989)
- Princesa negra (1996)
- Sade (1999)
- Contos Proibidos do Marquês de Sade conhecida também como Quills do diretor Philip Kaufman (2000).
Cronologia
- 1740 - Nasce em Paris em 2 de junho. Vive dos quatro aos dez anos de idade no Comtat-Venaissim.
- 1750 - Estuda no Collège Louis-le-Grand e também com preceptor particular.
- 1754 - É admitido na Escola da Cavalaria Ligeira.
- 1755 - Torna-se subtenente do regimento de infantaria do rei.
- 1757 - É promovido a oficial. Tem início a Guerra dos Sete Anos.
- 1759 - Torna-se capitão do regimento de cavalaria de Bourgogne.
- 1763 - É desmobilizado e casa-se com Reneé-Pélagie de Montreuil. Passa quinze dias na prisão de Vincennes por "extrema libertinagem".
- 1764 - É recebido pelo parlamento de Bourgogne no cargo de lugar-tenente geral das províncias de Bresse, Bugey, Valromey e Gex.
- 1765/1766 - Mantém relacionamentos públicos com atrizes e dançarinas.
- 1767 - Falece o conde de Sade, seu pai, e nasce o seu primeiro filho, Louis Marie de Sade.
- 1768 - Primeiro grande escândalo: a mendiga Rose Keller processa o Marquês por maus tratos, em Arcueil. Sade é detido em Saumur por quinze dias, e depois em Pierre-Encise, perto de Lyon, por sete meses. Festas e bailes sucedem-se em seu castelo de La Coste, na Provence.
- 1769 - Nasce seu segundo filho, Donatien Claude Armand de Sade.
- 1771 - Nasce sua filha, Madeleine Laure de Sade.
- 1772 - Segundo grande escândalo: em Marselha, quatro prostitutas processam Sade e seu criado Latour por flagelações, sodomia e ingestão forçada de uma grande quantidade de cantárida (pó de asas de besouros africanos, capaz de provocar estado de excitação sexual no homem e na mulher) afrodisíaco. É condenado à morte por sodomia. Foge para a Itália. Na cidade de Aix-en Provence, a 12 de setembro, é executado junto com Latour em efígie (isto é, bonecos simbolizando Sade e seu criado foram publicamente executados, na ausência dos verdadeiros réus). Detido em Chambéry, é encarcerado em Miolans, na Savoie.
- 1773 - Foge em Miolans. Sua sogra, madame de Montreul, obtém licença do rei para prendê-lo e confiscar seus documentos, mas sem resultado.
- 1774 - Isola-se em seu castelo em La Coste.
- 1775 - Organiza diversas orgias em seu castelo. Risco de novo escândalo. Foge novamente para a Itália.
- 1776 - Volta à França.
- 1777 - Falece sua mãe, madame de Sade. É capturado em Paris e encarcerado em Vincennes.
- 1782 - Finaliza o Dialogue entre un prêtte et un moribond.
- 1784 - É transferido para a Bastilha.
- 1785 - Conclui Les Cent vingt journées de Sodome.
- 1787 - Redige contos e pequenas histórias.
- 1788 - Escreve Eugénie de Franval e Justine, Les infortunes de la ventu. Organiza um catálago de suas obras.
- 1789 - Provavelmente neste ano, conclui Aline Et Valcour. É transferido precipitadamente para Charenton, na noite de 3 de julho para 4 de julho. Com a tomada da Bastilha, são pilhados seus documentos e bens pessoais.
- 1790 - É libertado de Charenton. Inicia sua ligação com Marie-Contance Quesnet, que não mais o abandonará.
- 1791 - Publica clandestinamente Justine ou Les malheurs de la vertu. Escreve seu primeiro texto político. É também o ano da primeira montagem de Oxtiern.
- 1792 - O castelo de La Coste é pilhado. Le Suborneur é levado à cena, sem sucesso.
- 1793 - Redige novos textos políticos. É mais uma vez acusado e detido.
- 1794 - Prisioneiro em Carmes, Saint-Lazane, na casa de saúde de Picpus. É condenado à pena de morte e posteriormente liberado.
- 1795 - Publica clandestinamente La philosophie dans le boudoir e, oficialmente, Aline et Valcour.
- 1796 - "Oxtiern" é levado novamente à cena, agora em Versalhes, onde seu autor vive de forma muito modesta. A ele cabe o papel de Fabrice.
- 1800 - Publica oficialmente Oxtiern e Crimes de l'amour, e, clandestinamente, La nouvelle Justine.
- 1801 - É detido na editora Massé, que publica suas obras, onde também ocorre a apreensão da edição ilustrada em dez volumes de La nouvelle Justine e também de Juliette. Permanece preso em Saint-Pálagie e depois em Bicêtre.
- 1803 - A família obtém suas transferência para Charenton, onde ele passa a organizar espetáculos com os "loucos", que se tornam atração para visitas da aristocracia parisiense.
- 1807 - Escreve Journées de Florbelle. Os manuscritos desse livro, apreendidos em seu quarto, seriam queimados em praça pública por seu próprio filho, depois de sua morte.
- 1813 - Publica oficialmente La Marquise de Gange
- 1814 - Morre em 2 de dezembro, em Charenton.
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